No fim de 2002, o economista Guido Mantega já estava confirmado na equipe econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva, que se iniciaria em um par de semanas.
Nesta qualidade, ele participou da Reunião Trimestral de Conjuntura do SindusCon-SP. Vale lembrar que o país acabara de sair de uma campanha eleitoral que gerou incertezas, levando o dólar para perto de R$ 4,00, e disparou os juros, esfriando a atividade produtiva.
Mantega afirmou estar “moderadamente otimista” em relação a 2003, que seria o primeiro ano do novo governo. Previu um crescimento de 2% a 3% do PIB e a estabilização do dólar entre R$ 3,20 e R$ 3,50.
Disse que o governo iria se esforçar em recuperar a credibilidade do país “sem fazer tudo o que o mercado quer”. Respeitaria os contratos, não permitiria a volta da inflação, manteria a meta do superávit primário. Com isso, esperava a redução do risco-país e a reativação de parte dos créditos externos com a conseqüente queda do dólar (“tem que cair, mas não muito, para estimular as exportações”), permitindo baixar os juros.
Os contratos foram respeitados, a inflação caiu ainda mais. Os créditos externos voltaram, o risco-país e o dólar desabaram. Os juros começaram a ceder, embora ainda estejam elevados.
Na ocasião, o economista também afirmou que o futuro governo estimularia a construção civil, entre outros setores, embora reconhecesse que isso dependeria em grande parte da queda dos juros.
Questionado sobre o risco de aumento da inflação por parte dos segmentos que detêm o poder de impor preços, Mantega reconheceu a necessidade de aperfeiçoar os mecanismos de defesa da concorrência. E manifestou conhecimento sobre as então excessivas elevações de preços praticados por oligopólios de fornecedores de materiais de construção.
Agora ministro da Fazenda, Mantega promete racionalizar gastos e aumentar os investimentos em expansão da infra-estrutura, numa eloqüente demonstração de visão de país e coerência. Ao mesmo tempo, corretamente decidiu não reduzir alíquotas de importação, uma vez que o dólar baixo já está exercendo esta função.
Resta apenas o reforço aos mecanismos de defesa da concorrência. Seria uma pena se os custos da construção subirem, pressionados por alta de preços dos materiais, num momento em que há disposição do governo de investir em obras públicas e PPPs.
Coincidentemente, na mesma reunião estava o diretor da Escola de Economia de São Paulo da FGV, Yoshiaki Nakano, também dotado de visão de país.
Ele traçou um diagnóstico sobre a situação econômica da época, o qual obteve a concordância de Mantega. Segundo Nakano, a saída naquele momento para o governo federal era cortar despesas e exportar. Com isso, o Brasil recuperaria a capacidade de investir e a construção voltaria a crescer.
Hoje, o economista é um dos principais interlocutores do virtual candidato de oposição nas próximas eleições presidenciais, Geraldo Alckmin.
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